“—Onde você se meteu? Me liga dizendo que vai passar aqui em casa dentro de meia hora e demora mais de duas. Sinceramente? Acha que tenho tempo pra perder? Tô na faculdade. F-a-c-u-l-d-a-d-e. Você sabe o que é isso? Não, não sabe. Você sempre teve a vida ganha. Seu pai bancando suas contas, sendo literalmente a filhinha do papai. Eu não tenho muitas condições, não tenho a vida ganha. Teu pai te deu um carro, paga tuas viagens, te dá mesada e fora todas as roupas que você compra. Eu sei, você não tem mãe e de alguma forma seu pai tenta compensar isso. Afinal, ela morreu por culpa dele naquele acidente de carro. Mas será que você podia abrir um pouco esses teus olhos e ver que o mundo não gira em torno de você? Ficar aqui, esperando a minha namorada vir me buscar de carro porque não tenho condições pra comprar um, me fez pensar se realmente combinamos. Me diz: combinamos? Você cheia da grana, eu todo simples. Ou eu deveria dizer que sou pobre? Esse termo está certo. Eu sei que eu nunca surtei assim, hoje você tá conhecendo esse meu lado. Mas é que cansa. Cansa quando a gente sai e você paga t-o-d-a-s as contas. Deixa eu te pagar pelo menos um refrigerante, uma pipoca, ou um algodão-doce. Deixa, vai. Eu me sinto melhor assim. Você até pode achar machismo, mas é que eu sou assim. Eu gosto de agradar… Ainda mais quando se trata de você. Mas sabe, eu pensei muito nessas duas horas sentado aqui nesse paralelepípedo debaixo dessa maldita árvore. E sabe qual foi a conclusão que eu tirei? Nós não combinamos. Definitivamente. Reflita sobre todas essas coisas que te falei agora. Reflete. Eu tenho certeza que você chegará na mesma conclusão que eu. Olha, me desculpa, amor. Mas eu tô no último ano da faculdade, tenho milhares de provas pela frente e o trabalho final pra fazer. Tô terminando com você. Desculpa. Pode parando de chorar, afinal, você sabe que meu coração é de pedra e não amolece nem com reza brava. Então engole esse choro. Quem sabe daqui um tempo eu te ligo, ou não. Não sei se vou conseguir voltar a viver do mesmo modo em que vivemos hoje. E aí, algo a dizer?
— Duas coisas: Eu te amo incondicionalmente, e eu nunca tentei te diminuir. Pagava as coisas pra você porque sei que você tem que pagar as contas da casa e a faculdade. Sempre fiz isso achando que era o melhor, mas parece que não foi. E a última coisa é que eu me atrasei porque tinha ido no hospital pegar o resultado dos meus exames e quando os abri e vi o resultado fiquei muito abalada. Pois é, tô com câncer. Tenho seis meses de vida. E se você acha que eu só penso no dinheiro, é o que vou fazer de agora em diante. Será que você pode fechar a porta do carro que eu tenho que chegar em casa e programar o resto da minha vida? Porque, afinal, com ou sem você, eu ainda tenho uma, mesmo que seja breve.”
— Martin Weiss - receado (via
receado)